A árvore que não caiu e as lições do vendaval

Por Maurício Tuffani
Figueira na rua Bahia, em São Paulo, após a poda no dia 29. Imagem: André Tuffani Marino
Figueira-branca, também conhecida como falsa-seringueira, na rua Bahia, em São Paulo, após a poda no dia 29. Imagem: André Tuffani Marino

A Prefeitura de São Paulo precisa reavaliar sua forma de lidar com a vegetação de suas vias públicas —e isso vale para outras cidades brasileiras. Depois de mais de mil árvores terem caído na capital paulista em pouco mais de duas semanas sob a ação de fortes chuvas e ventos, provocando danos a edificações e falta de energia a milhões de moradores, a prefeitura felizmente deu sinais de que parece estar revendo seus procedimentos. A começar pela elaboração de um diagnóstico da situação de cada uma das cerca de 670 mil árvores sob sua responsabilidade.

Um dos exemplos concretos dessa mudança de atitude foi a poda, realizada na quinta-feira (29.jan), da grande figueira-branca —Ficus elastica, também conhecida como falsa-seringueira— localizada na rua Bahia, quase na esquina com a rua Maranhão, em Higienópolis, na região central da cidade. No dia 2 de julho do ano passado, uma equipe da prefeitura que foi ao local para derrubar essa árvore foi impedida pela rápida mobilização de cerca de 50 moradores da região, que em contato com a subprefeitura da Sé conseguiram suspender a operação por mais alguns dias.

No dia 10 de julho, o movimento Defenda São Paulo encaminhou ofício ao Ministério Público solicitando prorrogação por pelo menos mais 30 dias para apresentar parecer técnico sobre as condições da árvore à SVMA (Secretaria do Verde e do Meio Ambiente do município). Em 21 de agosto, a ONG entregou ao órgão o documento com a recomendação da “poda de equilíbrio com remoção aproximada de 30% a 40% da parte aérea” e de outras medidas para a manutenção da árvore. O parecer foi elaborado pela agrônoma Astrid Marchini, que já foi chefe da Unidade de Parques e Jardins e gerente geral de Áreas Verdes da prefeitura.

A essas recomendações técnicas, a arquiteta Lucila Lacreta, diretora executiva do Defenda São Paulo, acrescentou, em seu ofício de encaminhamento à prefeitura, que

“a referida árvore é parte integrante da paisagem da área, que tem preservada sua qualidade de vida pela presença de árvores nas ruas e alamedas, atenuando o seu caráter central.”

Os fatos posteriores mostraram que o assunto é complexo. Apesar de não ter recebido as providências recomendadas pelo parecer encaminhado pelo Defenda São Paulo, a figueira-branca sobreviveu às fortes chuvas e ventos que chegaram a 85 km/h, reforçando os argumentos da entidade e dos moradores que haviam pedido por sua manutenção. Porém, na avaliação técnica inicial da prefeitura, a árvore estava condenada e precisava ser removida, entre outras razões por segurança.

Muitas das árvores que não eram saudáveis poderiam ter sido diagnosticadas, inclusive sob o aspecto da impossibilidade de ações para recuperação e prolongamento de vida, diferentemente do que foi sugerido para a árvore da rua Bahia. Porém, para complicar, estavam sadias 66% das árvores da cidade que caíram a partir de 29 de dezembro, segundo a própria SVMA. Isso mostra que  problema não se restringe aos critérios de corte, mas envolve também a qualidade do monitoramento da vegetação das vias públicas.

Toda essa situação catastrófica enfrentada por São Paulo precisa render algumas lições, a começar pela necessidade de acabar com a conivência brasileira com a ridícula fiação aérea em nossas vias públicas, que por si só gera outros riscos, independentemente da proximidade com árvores.

Além da reavaliação dos critérios de corte —que parece estar acontecendo, como mostra a poda de equilíbrio da figueira-branca da rua Bahia realizada há poucos dias—, é preciso que o monitoramento da situação das árvores e da fiação seja permanente. E avançaríamos muito se os dados desse trabalho fossem disponibilizados publicamente pela internet.